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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A escolha do Jorge:"Teoria dos Limites"

"Teoria dos Limites" é o mais recente romance de Maria Manuel Viana (n. 1955) publicado em março último pela Teodolito.
A obra original desenvolve-se em dois planos como se tratassem de duas faces da mesma moeda, de um lado a narrativa e do outro a estrutura em que se desenrola articulando de modo primoroso a doutrina de Leibniz (1846-1716), filósofo alemão, assente na monadologia com a ideia que a literatura se rege pela demanda da obra "luminosa" que qualquer escritor, grande escritor, deseja escrever como se tratasse da demanda do Santo Graal.
Assim, o início da obra é marcado pelo funeral daquele que é reconhecido como o grande escritor nacional tantas vezes indicado para Nobel da Literatura, juntando-se milhares de anónimos em jeito de homenagem em dia de luto nacional.
É no cemitério que ficamos a conhecer as várias perspetivas da história, do escritor e da relação que se mantém com ele sempre que na mudança de capítulo a narrativa é contada por um personagem diferente, um narrador diferente. É ao longo da apresentação das várias perspetivas que o leitor vai visualizando lentamente cada passo dado no cemitério, cada momento importante do ritual até ao derradeiro momento em que o grande escritor é sepultado.
Mas terá o grande escritor concluído o projeto sobre o seu romance "Teoria dos Limites" ainda antes de falecer? E qual era a temática central da obra? É precisamente aqui que o grande escritor tendo partido da monadologia de Leibniz em que "a mónada era uma substância que unia o corpo e a alma, apresentando uma perspetiva, um ponto de vista próprios sobre o mundo, coexistindo todas numa harmonia perfeita" (p. 41) que percebemos gradualmente ao longo da narrativa as implicações que esta teoria tem na literatura na medida em que "abre-se uma infinidade de possibilidades literárias de que ainda só tenho a ideia geral, a de um grupo de pessoas, com alguma ligação, ainda que superficial, entre si, num espaço concreto, a viver um mesmo acontecimento mas a percebê-lo sob uma perspetiva individual, por vezes contraditória ou até duplicando-o entre o que aconteceu e o que poderia ter acontecido." (p. 41)
Assim, o projeto "Teoria dos Limites" joga com a delimitação do campo da literatura na medida em que a mesma ganha quantas mais forem as perspetivas e narradores ao longo da obra testando assim os limites da própria literatura.
À medida que a narrativa se vai estruturando, o leitor vai compreendendo os vários pontos de vista, situando-se ele próprio também dentro desta estrutura literária que lhe permite olhar para a obra como um todo alcançando o sentido e a importância de cada uma das partes envolvidas sem que para isso se perca ou distraia da história propriamente dita.
Mas não pense o leitor que "Teoria dos Limites" é uma obra que contempla essencialmente questões técnicas na medida em que a história em si mesma tem espaço e tempo para se desenrolar indo de encontro aos grandes temas trazidos pela literatura desde que há registo, a saber, o amor, a morte, a traição, no fundo os vários dilemas e preocupações dos homens e mulheres que tanto no passado como nos dias de hoje interessam à humanidade.
Não sendo propriamente um livro de difícil compreensão, "Teoria dos Limites" exige do leitor muita atenção e reflexão obrigando diversas vezes a reler certas passagens ou incitando o leitor à pesquisa deste ou daquele assunto no intuito de obter mais informação. "Teoria dos Limites" é um livro que testa em si mesmo o leitor face ao domínio e limites da literatura promovendo em certa medida um novo espaço de reflexão face aos vários assuntos levantados.
Outro dos aspetos a tomar em consideração é não só a linguagem utilizada, mas o tempo, a cadência dos acontecimentos num dado espaço que enriquecem a narrativa. O sentido de humor levado muitas vezes pelo sabor da ironia, umas vezes mais velada, outras de modo tão caricato conduz, em situações pontuais, à gargalhada como se tratasse de uma anedota.
Mais outro ponto a considerar em "Teoria dos Limites" é a crítica à sociedade em geral, tanto nos estratos sociais mais elevados (maioritariamente onde a narrativa se desenrola) sendo dada clara importância aos nomes das famílias com estatuto e relevância, não ficando de fora os costumes, e também o contraste/choque que nos dias que correm é cada vez mais notório em profissões que se parte do princípio que deveriam ter mais conhecimentos face aos estudos que detêm e que afinal são tantas vezes esmagados pela ignorância e mediocridade que tanto assolam a sociedade em geral.
"Teoria dos Limites" é um daqueles livros que nos marca de um modo diferente quando o comparamos aos grandes romances literários. Marca-nos não só por se tratar de um livro completamente diferente daquilo que estamos habituados e que nos ajuda a olhar para a literatura (que aqui é enriquecida pela via da filosofia) procurando novos sentidos e limites da nossa relação com os livros em geral.
"Teoria dos Limites" é um livro que oferece milhares de leituras diferentes nunca se esgotando em si mesmo sendo, pois, um livro que subsistirá ao tempo e a quaisquer tendências literárias de uma dada época, tornando-se assim numa obra intemporal.

Excerto:
"O que eu gostava, o que todo o escritor gostava, é de escrever o livro final, definitivo. Por isso digo: estou a pensar um livro e não a escrever um livro. Um livro que seja a possibilidade da sua própria possibilidade. Uma espécie de antologia em que reuniria textos, poemas, ensaios, versos, frases, palavras, sons, notas musicais, cores, sinais gráficos que um dia me tocaram. Um livro em que a última palavra, luminosa, seria sempre a palavra em falta." (p. 87)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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