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quinta-feira, 17 de julho de 2014

A Escolha do Jorge: "À Espera de Moby Dick"

Por vezes adquirimos livros que acabam por ficar algum tempo ou mesmo anos a fio nas estantes junto dos demais livros à espera de serem lidos como se de alguma forma cada livro tivesse o seu timing correto para ser lido por cada pessoa. Foi exatamente o que aconteceu com "À Espera de Moby Dick" de Nuno Amado que já cá estava em casa há quase dois anos precisamente desde a altura em que foi publicado em 2012.
Estes livros que parecem ter vida própria acabam por ser daquelas pérolas que temos bem guardadas entre os outros livros e que após a sua leitura vão certamente ocupar um lugar especial na nossa biblioteca sendo igualmente daqueles livros que farão parte de nós por diversas razões.
Escrito sob a forma epistolar, "À Espera de Moby Dick" apresenta-nos muitas histórias cruzadas que à medida que a narrativa avança vão encaixando umas nas outras tratando-se, pois, de um livro que é um hino à vida mesmo quando esta se nos apresenta difícil e desgastante, mas é igualmente um livro sobre viagens e livros, em suma, a descoberta do prazer de viver e a forma como cada um de nós tenta encontrar-se consigo próprio, encontrando, consequentemente, o seu lugar no mundo tentando também compreender a sua relação com as demais pessoas à sua volta.
O personagem principal de quem nunca sabemos o nome desde cedo sentiu necessidade de conhecer o mundo dado que há tanto para visitar e tantos amores por viver e é essa tomada de consciência face à urgência em viver de tal modo para não perder nada ou para que nada fique para trás, que o personagem principal se vai apercebendo da inevitabilidade da sua, nossa, finitude, num mundo, universo de possibilidades e alternativas. É através das cartas que envia aos seus pais que vai dando conta do amor que lhes devota, mas simultaneamente do sofrimento da separação durante a longa viagem à volta do mundo procurando viver intensamente tudo à sua volta como em Nova Iorque, Veneza, Praga ou Madrid. É também um pouco por estes locais que visita que vai compreendendo o que é o amor e o apaixonar-se, mas também sobre a inevitável perda na sequência da viagem que terá de continuar.
Já na casa do quarenta anos, talvez, dado que a idade nunca é objetivamente indicada, o personagem principal é acometido por algo trágico que acontece na sua vida apelidando-o de "aquilo-que-aconteceu" ao longo de toda a obra não só como forma de prender o leitor, mas também evidenciando através do personagem a sua incapacidade ou talvez negação em levar a sua vida para a frente optando por se refugiar nos Açores, mais especificamente numa pequena localidade isolada na proximidade de Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel.
É durante o seu exílio a que tantas vezes faz referência à sua passagem pelos Açores que inicia a troca de correspondência com o seu melhor amigo que reside em Lisboa relatando frequentemente o seu quotidiano, a relação que mantém com os habitantes da localidade e o grande desejo de ver uma baleia quase em jeito de redenção pessoal.
É na sua passagem pela ilha e na relação com os "novos amigos" que o personagem principal vai compreender que o ser humano procura resolver a (in)compreensão da dor através das formas mais curiosas e não menos dolorosas percebendo então que afinal o ser humano é ainda mais frágil do que aquilo que imagina e que afinal o segredo da felicidade está precisamente em viver a vida e não fugir dela.
Há momentos na vida de cada um em que o simples colocar os pés no chão pode ser algo gritante faltando tantas vezes a coragem e a esperança no amanhã para continuar a jornada.
Nuno Amado consegue fazer com que o leitor sorria inúmeras vezes, mas é também capaz de o fazer lacrimejar de alegria e felicidade intensa ao referir-se a questões tão práticas como o que é importante nas nossas vidas e das quais não devemos fugir.
Aliando o doce viver às viagens que realizamos, aos livros que lemos e aos filmes que vemos, ficam somente a faltar aqueles que amamos, os que já partiram e aqueles com quem diariamente convivemos.

Excertos:
"(…) Devo dizer que não acho que vivamos tempos terríveis, de crise ou medo, mas sim que vivemos na mais feliz, próspera, luminosa, tremenda, insuperável das eras, nem que seja porque é a única que eu conheço, a única da qual eu posso dizer que respirei o ar."(p. 111)
"Amanhã vou ver baleias. Imagino que um monstro de carne e espuma salta e abalroa o barco. Imagino que me engole e lá dentro encontro Jonas e Gepetto. Mas, o mais importante, encontro um bálsamo para todas as minhas recordações de um mundo que é mais belo do que merece. Que é mais belo do que aquilo que mereço." (p. 121)
"Agora resta-me viver a vida fora do papel, feliz por saber que perto de mim, pode estar um pianista sonâmbulo, uma criança perguntando a um adulto onde fica a cama de Deus, um guarda-livros apaixonado por uma cantora lírica, um jovem a quem os médicos têm de retirar uma colher de pus do seu lindo corpo, um adolescente que se apaixonou pela primeira vez no dia anterior, um amigo que me abrirá sempre a porta.
Como te disse, o suicídio nunca será uma opção para mim. Agora, depois deste dia divino, consigo até precisar as muitas razões para continuar vivo. Dizem que há sete biliões de pessoas no mundo. São sete biliões de motivos para não me matar.
Obrigado, muito obrigado." (p. 243)
Texto da autoria de Jorge Navarro

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