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domingo, 15 de junho de 2014

Ao Domingo com... José Cipriano Catarino

Soprou-me o vento sobre o barro, assim fez o meu ser,  pés colados à terra, cabeça acima das nuvens.
Cozeu-me à sua imagem — irascível, instável, amigo de larguezas e de solidões. Deu-me por brinquedos imaginação e argila para os moldar — quase sempre aviões, como os que sobrevoavam as vinhas por onde corria descalço, braços abertos como asas tentando elevar-me
da mediocridade terrena, e embalado nas descidas pulava barreiras e silvados, e por instantes também eu voava, não tão alto como os jactos que traçavam no céu linhas brancas, nem como os falcões que nele planavam, nem sequer como as esquivas perdizes de voo curto — era antes esvoaçar de melro de moita em moita, coisa de metros, depois, o preço de cada sonho: trambolhão na realidade, amortecido pela terra mole sempre amiga, para outra vez  me levantar e acelerar ladeira abaixo, outra ribanceira, outro salto, outra queda... 
No seu soprar constante o vento levou-me os cabelos um por um, metaforizou as minhas ribanceiras, os meus silvados, os meus voos, só preservou a veleidade de querer elevar-me acima da terra de que me fez, isolando-me daqueles que por todo o lado protestam, resmungam, vociferam, insultam, ameaçam. 
Torno-me suspeito pelo silêncio — a minha linguagem é outra. Oiço as vozes, escuto as raivas, misturo-as, observo as vidas, confundo-as, depois moldo-as no barro da minha escrita, sopro-lhes a vida, na esperança de que se não esboroem tão depressa como o pó de que o vento me fez...

José Cipriano Catarino

1 comentário:

  1. "ENTRE CÓS E ALPEDRIZ" - acabei de ler este livro e recomendo-o vivamente, pois é um belíssimo e real retrato do que foi Portugal, nomeadamente do que foram os primeiros cinquenta anos do século XX. Vale bem a pena, ver como viviam e falavam as nossas gentes, quando os mais novos falam em crise (e ela existe mesmo) vejam como vivia a maioria das gentes portuguesas.

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