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sexta-feira, 20 de junho de 2014

A Escolha do Jorge: O Choque da Queda

Nathan Filer (n. 1981) é enfermeiro de doenças mentais e regista com frequência muitas das experiências que tem tido com os doentes nos hospitais por onde tem passado, material esse que de alguma forma lhe serviu de inspiração para a redação de "O Choque da Queda", o seu primeiro romance que lhe valeu em 2013 dois importantes prémios literários no Reino Unido, nomeadamente o COSTA BOOK AWARD e o COSTA BOOK AWARD para Primeiro Romance.
Com uma escrita apelativa desde a primeira página, Nathan Filer entra no corpo e alma de Matthew Homes, um jovem de dezoito anos que relata a sua vida desde os oito, idade em que ocorre o acidente trágico que vitimou mortalmente o seu irmão Simon na sequência de uma brincadeira.
Não entraremos em detalhes da história até porque à medida que avançamos na narrativa há muitos momentos que são mesmo previsíveis, mas ainda assim estamos perante um livro que só conseguimos largar quando chega precisamente ao fim.
Não se percebe exatamente se Matthew aos oito anos já evidenciava sintomas de esquizofrenia, doença de que vem claramente a padecer durante a adolescência, mas a conjugação do sentimento de culpa com a dor da perda do irmão poderão estar de alguma forma na origem da doença que tem como consequências diretas a dificuldade de relacionamento com familiares e amigos evidenciando em dadas situações um comportamento agressivo, verbal e/ou físico. De referir ainda como tónica central da doença a incapacidade de distinguir a realidade das alucinações frequentes que passa a ter como se uma fosse a continuação da outra ou como se de alguma forma ambos os planos se confundissem.
À medida que os anos vão passando e entrando Matthew na crise da adolescência, a situação agrava-se porque sente dolorosamente a falta do irmão confundindo-se a certa altura da narrativa a dor infinita com a necessidade de perdão por parte de Simon que passa a estar cada vez mais presente em todas as suas atividades do quotidiano quase sentindo que um e outro são uma e a mesma pessoa em certos momentos.
É esta crise de identidade bafejada por sérias alucinações que fazem com que Matthew chegue a pôr em perigo a sua própria integridade física conduzindo em certa medida a um internamento e/ou ao aumento das doses da medicação que o afastam cada vez mais da realidade ficando completamente debilitado física e psicologicamente, dando, pois a ideia de uma contradição.
"A Mamã desapareceu a certa altura, depois as luzes apagaram-se e ela voltou com um bolo de anos de chocolate com dezoito velas acesas. Toda a gente cantou em coro Happy Birthday. O Simon incluído.
Estava nas chamas.
É claro que estava nas chamas.
Uma enfermeira agarrou-me pelo pulso, conduziu-me rapidamente para a sala de tratamentos, onde colocou os meus dedos empolados debaixo da torneira da água fria. Não faço ideia do que fiz, sei apenas que tentava agarrá-lo.
Mudaram-me outra vez a medicação. Mais efeitos secundários. Mais sedativos. Por fim, o Simon tornou-se mais distante. Procurei-o nas nuvens de chuva, nas folhas mortas, nos olhares enviesados. Procurei-o nos lugares onde esperava encontrá-lo. Na água da torneira. No sal derramado. Pus-me à escuta nos espaços entre as palavras." (p. 225)
Nos momentos de lucidez, Matthew passa a escrito a sua história recuando novamente aos oito anos onde e quando tudo começou, sendo, pois, esta a história que nos chega às mãos como narrador que nunca põe de lado os momentos e vivências mais críticas da sua doença.
Matthew tem a consciência de que irá sempre viver com a doença e que inevitavelmente regressará ao hospital com uma nova recaída, mas com a ajuda da família e da equipa que o tem apoiado, conseguiu um feito notável, a reconciliação com o irmão ainda que nos momentos de menor lucidez oiça mais ou menos Simon mediante a medicação que toma.
"Falei-vos do meu primeiro internamento no hospital, mas voltei a ser internado depois. E sei que voltarei a sê-lo. Movemo-nos em círculos, esta doença e eu. Somos electrões que andam à volta dum núcleo.
(…)
Assim sendo, junto estas páginas às outras da pilha e fica tudo como está. Escrever sobre o passado é revivê-lo, é vê-lo desenrolar-se outra vez. Pomos recordações em bocados de papel para saber que elas existirão sempre. Mas esta história nunca foi uma evocação, é a descoberta duma maneira de esquecer. Não conheço o final, mas sei o que vem a seguir. No corredor, dirijo-me para o som da Festa do Adeus. Mas não chego lá. Vou virar à esquerda, depois à direita e abrir a porta de entrada com as duas mãos.
Hoje não tenho mais nada que fazer.
É um começo." (pp. 251-252)
Assim, a dor e a loucura são as faces da mesma moeda ao longo de "O Choque da Queda", livro que certamente o leitor não sairá ileso. Com momentos igualmente hilariantes alternados com outros de profunda alucinação e até agressividade, o livro conquista-nos também com momentos doces e ternos que dificilmente esqueceremos.
Ficção à parte, este é igualmente um livro que nos ajuda a compreender o mundo (in)compreensível das alucinações, da loucura. Como se a realidade em que vivemos não tivesse a sua dose de esquizofrenia…
"A doença mental vira as pessoas para dentro. É o que eu acho. Mantém-nos presos eternamente no sofrimento das nossas próprias mentes, da mesma maneira que a dor duma perna partida ou dum dedo cortado se apodera da nossa atenção, agarrando-a com tanta força que a perna boa ou o polegar inteiro parecem deixar de existir." (p. 226)

Texto da autoria de. Jorge Navarro

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