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quinta-feira, 8 de maio de 2014

A Escolha do Jorge: Intempérie

“Intempérie” é o romance de estreia do espanhol Jesús Carrasco que tem tido lugar de destaque no país vizinho ao longo de 2013 tendo sido escolhido como o melhor livro, tanto por parte dos media, como por parte dos leitores.
Ao iniciarmos a leitura de “Intempérie”, mergulhamos num mundo sem referências a um país em particular ainda que o universo descrito se aproxime de alguma forma da planície mexicana, deserta e pobre, tão característica também das obras de Juan Rulfo. Também não existem quaisquer indicações à época em que decorre a narrativa ainda que a mesma possa decorrer nos dias de hoje numa área geográfica tremendamente hostil à fixação humana promovendo relações complexas e não menos duras entre os habitantes. 
Imaginemos um rapaz que já não sendo propriamente uma criança, também ainda não é um adolescente na verdadeira aceção da palavra. Este rapaz sem nome, à semelhança dos demais personagens da narrativa, é a figura central de “Intempérie”, decide fugir da sua aldeia abandonando a sua família sem que nunca se saiba quais são as razões de tal fuga, acabando por se esconder refugiar num buraco onde se mantém até que as vozes que o procuram deixem de soar.
Saído do esconderijo, o rapaz embarca numa viagem sem destino anunciado acabando por conhecer um pastor cuja vida se aproxima à dos pastores nómadas que deambulam por uma extensa região à procura de alimento e água para o seu rebanho de cabras.
A medo, o rapaz começa a conviver com o pastor com quem vai aprendendo algumas lições de vida que se traduzem no modo se sobrevivência naquele mundo duro e hostil, transitando consequentemente do estado de criança para a adolescência marcando-o garantidamente na sua vida de adulto.
O que o rapaz não esperava, nem nós leitores, é que a partir do momento em que passa a lidar de perto com o pastor que de alguma forma acaba por desenvolver uma ligação afectiva no que respeita ao cuidar do próximo, ao desenvencilhar-lhe com poucos recursos tentando tirar o melhor partido da natureza, é também a partir deste momento em que têm lugar as experiências menos expectáveis, as quais não são supostas acontecerem a rapazes daquela idade e perante as quais toda a vida dali para a frente nunca mais será a mesma.
É no contexto de acontecimentos marcantes, alguns trágicos, que o rapaz irá confrontar-se com a crueldade do mundo em que está inserido não deixando, no entanto, de procurar manter a sanidade através dos valores a que se agarra a todo o custo ainda que não os compreenda totalmente, vendo-se na iminência de também ele cometer as maiores atrocidades totalmente de modo inesperado face a situações de desespero, de vida ou de morte, agarrando-se a cadinhos de vida salutar no meio de tanta 
insanidade.

"Intempérie” é um livro surpreendente tanto quanto marcante na medida em que dificilmente o esqueceremos estando para lá do espaço e do tempo, de nomes, de uma moral que em universos complexos como o desta narrativa está longe de se apresentar transparente como a água que também tantas vezes nos é descrita como imprópria para o consumo.
A recente edição de “Intempérie” de Jesús Carrasco em língua portuguesa permitiu-nos conhecer mais um jovem escritor espanhol, além de vir também alegrar o panorama editorial português nos últimos tempos.

Excertos:
“O menino ficou calado. Se o pastor não podia mover-se, tinha de ser ele quem iria à procura de água. Pensou nos dias prévios, na insolação, na sede e nas caminhadas nocturnas e sentiu medo, porque só graças à presença do pastor fora capaz de salvar a sua vida.

- Terás de ser tu a ir procurar água.
- Não sei onde há.
- Eu digo-te.
- Tenho medo.
- És um rapaz muito valente.
- Não sou.
- Chegaste até aqui.
- Porque você estava.
- Porque tinhas vontade.

O rapaz não soube o que responder.

- Já viste a coroa que Cristo tem em cima?
- Sim, tem três pontas.
- Chamam-se potências. Uma é a memória, outra o entendimento e a terceira, a vontade.

O menino ergueu o olhar. O crepúsculo recortava no alto do muro uma silhueta negra em que se adivinhavam a túnica, as mãos e a coroa de espinhos. Ao garoto pareceu-lhe bonito o que o velho lhe contava e, por um momento, deixou escapar as suas preocupações.

- Cristo também sofreu. Eu não quero sofrer mais.
- Então ficamos aqui e morreremos de sede. Rapidamente deixaremos de sofrer.” 
(pp. 113-114)

Jorge Navarro

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