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quinta-feira, 20 de março de 2014

A Escolha do Jorge: "A Experiência"

A Cavalo de Ferro Editores desde meados de 2013 começou a reeditar a obra completa de Ferreira de Castro (1898-1974), um dos escritores portugueses mais traduzidos em todo o mundo e nem por isso menos esquecido nas últimas décadas em Portugal. Os títulos já publicados são “Emigrantes”, “A Missão” e agora foi a vez de “A Experiência” chegar às livrarias. Integrado no contexto do neorrealismo, Ferreira de Castro é um acérrimo defensor dos direitos dos trabalhadores através da denúncia das más condições de vida e de trabalho, a dificuldade que tantas pessoas têm em satisfazer as necessidades básicas como a alimentação, o olhar para o futuro através da emigração que também o autor tão bem conheceu.
Numa época conturbada como a que atualmente se vive em Portugal, (re)ler as obras de Ferreira de Castro conduzem o leitor a questionar o sentido que o país tem tomado ao longo das últimas décadas deixando-nos numa verdadeira encruzilhada.

A dias de “comemorar” os 40 anos do derrube da ditadura, têm sido sempre receosos os discursos e comentários alusivos à efeméride na medida em que se denota alguma (ou mesmo muita) contenção nas palavras de quem quer que dê a cara. Se por um lado 40 anos é um período já considerado digno de comemoração, por outro lado serão certamente poucos os portugueses que sentirão verdadeiramente a alegria intensa quando o país é revisitado por sérias dificuldades económicas que atingem uma parte significativa da população, não esquecendo os ataques sucessivos a direitos dos cidadãos que tão dificilmente as gerações anteriores conseguiram almejar e que atualmente assistimos a uma destruição progressiva e compulsiva de direitos concretos que serviam de base para uma sociedade sólida e com esperança no futuro e no progresso.

Escrito em 1952-1953, “A Experiência” é um dos mais complexos livros de Ferreira de Castro e não menos subversivos atendendo ao facto de que a abordagem de temas como prostituição e aborto numa época em que predominava o lema “Deus, Pátria, Família” é sem dúvida um salto qualitativo no que diz respeito ao mercado editorial de então. Não deixa de ser interessante que só nas últimas páginas do romance há uma alusão objetiva e direta à prostituição quando um dos interlocutores diz: “- Mas há de vir um dia em que ninguém terá necessidade de roubar ou de prostituir, caminhos trilhados por Januário e Clarinda, os personagens principais do romance.

Para além dos temas acima indicados, Ferreira de Castro estabelece o ponto nevrálgico da obra sendo, pois a questão central, a base de uma sociedade mais justa e consciente que é a aposta na educação dos jovens de modo a poderem tornar-se verdadeiros exemplos de cidadania ativa orientados para a construção de um mundo mais justo e, consequentemente, menos cruel. Esta experiência (utopia) é,
pois, o desejo que Henrique Sampaio Mendo deixou em testamento para que fosse criado um asilo para crianças desprotegidas de Mangudas, no interior do país, cujas interpretações rapidamente foram subvertidas na medida em que os elementos mais proeminentes da localidade consideravam que a educação dos jovens estava a seguir um caminho perigoso que os afastaria daquele que era considerado o normal funcionamento da sociedade.

Profundamente atual e não menos acutilante, Ferreira de Castro apresenta-nos um romance que nos dias que correm nos levam a refletir sobre que caminho deverá trilhar a sociedade com vista à concretização de objetivos tão nobres. Mas até que ponto estará a sociedade disposta a dar esse passo?

Quantos Januários e Clarindas conseguirá a sociedade resgatar se não apostar numa educação responsável e assente em valores que a todos dignifica?

Excertos

“Mas, um dia, tornei a pensar: «Pois se estás quase um homem e te vês sem futuro, pois se aqui não podes arranjar nada, por que não arriscas e não vaispor aí fora? Outros mais novos do que tu têm ido para Lisboa, para o Brasil e mais longe ainda». Comecei a empreender naquilo e cada vez sentia mais vontade de partir. Tinha medo, mas parecia-me que tudo seria melhor do que estar em casa do doutor Carrazedas…”

“Que se estimule igualmente na alma das crianças o sentimento de justiça, que, sendo também inato, se encontra atrofiado, às vezes mesmo suprimido por velhas ideias feitas, por princípios remotos que emprestam às maiores iniquidades a legitimidade de atos normais e, pela lei de precedência e força do hábito, tranquilizam as consciências se, apesar de tudo, em alguma delas se produz um rebate.

Mais determino que esta obra de compreensão seja orientada num sentido ativo e não passivo: compreender e amar os homens para melhor aclarar e melhor combater as razões das injustiças, da miséria e da servidão que anulam tantas vidas e que levam muitas outras ao desespero e até ao crime, transformando em noite negra a alvorada que cada qual traz consigo quando nasce.”
“- E ele disse que há de vir um dia em que haverá pão para todos.”

Texto do autoria de Jorge Navarro

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