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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A Escolha do Jorge: "O Sermão Sobre a Queda de Roma"

O Sermão sobre a Queda de Roma de Jérôme Ferrari recebeu o PrémioGoncourt 2012 tendo sido publicado no final de 2013 pela Divina Comédia Editores. Trata-se de um livro bastante interessante na medida em que a narrativa decorre sob a forma tradicional de um sermão de Santo Agostinho que no século V explica aos cristãos em Hipona, na Argélia, que não deverão temer o cumprimento das profecias no que concerne à queda de Roma em virtude das invasões dos pagãos, alguns dos povos bárbaros que integraram a 1ª vaga de invasões bárbaras entre os séculos III a V da era cristã.

Outro dos aspetos curiosos de “O Sermão sobre a Queda de Roma” é o facto de o autor ter decidido contar, a par do sermão de Santo Agostinho, uma história contemporânea tendo-lhe aplicado os mesmos conceitos de um sermão ainda que de forma adaptada face às palavras do filósofo cristão, sem bárbaros e sem lutas, mas demonstrando sempre confiança face ao futuro.

Deste modo, o ponto em comum entre os cristãos (romanos) que temiam a inevitável invasão dos bárbaros e qualquer um de nós, nos nossos dias, tem a ver como, por vezes, a tragédia assume um papel determinante capaz de alterar o rumo das nossas vidas. Do mesmo modo que as invasões bárbaras conduziram à queda de Roma e à consequente desagregação do Império Romano e do próprio Mundo Antigo, também a vida de uma pessoa chegará inevitavelmente ao seu fim (fatores biológicos ou outros) ou tal como tantas vezes acontece que face a determinadas situações extremas,vemo-nos obrigados a mudar certas circunstâncias das nossas vidas.

Esta aproximação e até conciliação entre o sentido da vida e da Históriarecupera algumas das teorias no âmbito da Teoria da História e do Saber Histórico que, neste caso em concreto, são apresentadas sob a forma de umromance.

Excertos:

“(…) Roma já não existia, fora destruída há muito, muito tempo, só restavam reinos mais bárbaros uns que os outros a que era impossível escapar, e aquele que fugia à miséria nada mais podia esperar senão exercer o seu poder inútil sobre homens mais miseráveis que ele, como agora fazia Marcel, com o empenho impiedoso de quem conheceu a miséria e já não suporta o seu espetáculo nojento, e não para de se vingar na carne dos seus semelhantes mais parecidos. Talvez cada mundo não passe do reflexo deformado de todos os outros, de um espelho longínquo onde as imundícies parecem brilhar como diamantes, talvez haja apenas um único mundo para fora do qual é impossível fugir porque as linhas dos seus caminhos ilusórios se reúnem todas aqui mesmo, junto da cama onde agoniza a jovem esposa de Marcel, uma semana depois de ter dado à luz o filho Jacques.”(pp. 141-142)

“A noite do fim do mundo era calma. Nenhum cavaleiro vândalo. Nenhum guerreiro visigodo. Nenhuma virgem degolada nas mansões em chamas.Libero fazia a caixa com a pistola pousada em cima do balcão. Pensava talvez com nostalgia nos seus anos de estudos, nos textos que quisera queimar no altar da estupidez do mundo e cujos ecos, porém, ainda chegavam até si.

Porque Deus só fez para ti um mundo perecível, e também tu estás prometido à morte.” (p. 193)
“(…) Acreditavas que Roma não cairia. Não foi Roma construída por homens como tu? Desde quando julgas que os homens têm o poder de construir coisas eternas? O homem constrói sobre areia. Se quiseres segurar na mão o que ele construiu só seguras o vento. As tuas mãos estão vazias e o teu coração aflito. E se amas o mundo, perecerás com ele.” (p. 202)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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