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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A Escolha do Jorge: "Facas"

Valério Romão tem vários trabalhos publicados desde a poesia ao teatro, passando por contos até ao romance com incidência nos dois primeiros volumes da trilogia Paternidades Falhadas, nomeadamente Autismo (2012) e O da Joana (2013), ambos com a chancela da Abysmo e com bom acolhimento tanto por parte da crítica como pelos leitores.

Facas é a mais recente aposta do escritor e a primeira colaboração com a editora Companhia das Ilhas apresentando-nos uma compilação singular de histórias que não darão tréguas ao leitor que é sucessivamente assaltado pela ideia permanente de algo trágico que acontece através da utilização sempre presente de uma faca que é o motor de cada história. Suicídio ou assassinato, cada uma das histórias tem a morte como o desfecho final como se não houvesse qualquer outro destino plausível além daquele que nos é presenteado.

Ler estas Facas de Valério Romão é sentir a cada história que passa um gradual e constante espetar de mais alguns centímetros do gume de uma faca com uma lâmina extremamente bem afiada chegando ao fim do livro com o punhal, todo ele espetado nas entranhas da consciência até ao estrebuchar final.

O autor não facilita a vida ao leitor que se por um lado inicia as histórias com contextos aparentemente normais, por outro, no momento certo, incute-lhe a dor misturada com a beleza das suas palavras através de frases bem construídas de uma riqueza semântica que nos atrai até ao derradeiro golpe final desconcertando-nos face ao inesperado.

Não conhecendo os outros trabalhos de Valério Romão, fica a certeza de estarmos perante um livro inigualável que nos agarra perante a imensidão da angústia e da dor e que, regra geral, tem somente um fim possível, preferencialmente ignominioso.

Cirúrgico nas palavras utilizadas, Valério Romão é objetivo e não tem nem dó nem piedade do leitor, não está com falinhas mansas ou com paninhos quentes para que o leitor se condoa deste ou daquele personagem. A sua missão é conduzir os personagens à consecução do seu destino, doa a quem doer, com uma faca, preferencialmente.

Após a leitura deste pequeno grande livro, certamente ficou em aberto o desejo de ler outras obras de Valério Romão. Com ou sem facas.

Um dos sete pequenos canivetes de Facas:


“Eu não queria ser talhante. Nunca quis. Há em mim um fermento de artista que anseia por algo mais do que fatiar um boi ao gosto do freguês, há em mim a alavanca de um desejo que pede para conformar matéria-prima em nacos de estatuária viva. Infelizmente, sou filho de um antigo regime, filho pobre e sem educação, e sobrevivi à custa da miséria que desde cedo me empurrou para o trabalho.
Eu bem dizia à minha mãe que queria ser escultor e que tinha jeito
e ela ouvia-me, de beiçola deitada, numa nostalgia contida de quem já viu muitos sonhos órfãos
e eu dava-lhe pequenas estatuetas que arrancava à madeira, envolvidas em papel de jornal, com o qul fingia embrulhos caros, e ela escondia um filamento de lágrimas, enquanto eu voltava feliz para a minha oficina de ilusões.
O meu pai pouco ligava aos meus anseios. O meu pai era o culminar avançado de um processo de sedentarização de horizontes: para ele havia uma profissão viável e de respeito
talhante
e tudo o resto era fantasia de capitalista faz-de-conta que mais cedo ou mais tarde ruía sob o peso respeitável da faca de trinchar.
Os meus amigos agradeciam-me os cinzeiros que lhes esculpia em robustas conchas de pinheiro e eu entusiasmava-me, secretamente, numa ânsia feroz que possuía as minhas mãos de cada vez que avistava uma árvore indefesa.
Nunca quis seguir as pegadas do velho. Aborreciam-me as conversas de vendedor e enojava-me todo o rol de animais incompletos que se amontoavam entre ganchos de metal e dedos hirtos num estendal absurdo.
As épocas festivas eram para mim absolutamente insuportáveis. Cada um dos feriados tinha uma ementa própria, cujo cumprimento ritualístico implicava sempre o manuseamento diário de dezenas de cadáveres de olhos baços, prontos a serem despachados, em geometrias de puzzle.
O velho obrigava-me a segurar nos facalhões enormes com que se separa a banha da carne e ensinava-me
muito contra a minha vontade
as técnicas corretas para disfarçar o curso normal da decomposição dos organismos mortos. Entretanto, o velho morreu e a minha mãe
que já não vê, pouco ouve e ainda menos fala
depende da minha perícia como laminador de costeletas e do meu paleio de vendedor. Ela fica dias inteiros na companhia da televisão e a enfermeira, que pago a preço de escalope de vitela, lembra-se, de quando em vez, de lhe mudar a fralda e de lhe dar banho antes de eu chegar a casa a tresandar a carne de peru.
Acabei por nunca frequentar as belas-artes e até hoje culpo o meu pai pela quantidade de vinho que açambarcou na procura de uma saída definitiva da pele de talhante. Se não tivesse morrido tão cedo eu provavelmente
com muito sacrifício familiar, decerto
teria feito o curso de escultor e agora estaria de cinzel em punho, com os olhos postos num gigantesco bloco de mármore, à procura da mulher que lá se esconde.
Mas quis o atraso da medicina e a qualidade inexistente do tinto que o meu pai consumia que ele não vivesse muito tempo e que a minha mãe, pouco após a sua morte, resolvesse ter três tromboses seguidas e passasse mais tempo a ser criança do que a ser mãe.
Por isso fiquei com o talho, com a clientela que com o passar dos anos perde em dentes mas ganha em teimosia e com um emprego que não queria, que nunca quis, mas que me permite, quando todos saem e eu fico sozinho com as peças enormes
penduradas nos ganchos metálicos
fazer um pouco de gosto naquilo que não vou vender a ninguém: pego num bloco enorme de vaca e com a faca de trinchar na mão, de olhos postos naquele gigantesco volume de carne, vou à procura da mulher que lá se esconde.”

In “Sete Pequenos Canivetes”
in “Facas” de Valério Romão, pp. 42-45

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